A demanda de exames na rede pública de saúde de Brusque mais que dobrou nos últimos seis anos.

Dados da Secretaria de Saúde apontam que, entre 2019 e maio de 2026, foram realizados 2.315.335 exames por meio de seis laboratórios que estiveram ou estão credenciados pelo município.

Em 24 de fevereiro deste ano, a fila de espera contabilizava 3.783 solicitações aguardando atendimento.

Segundo a prefeitura, o tempo médio de espera para realização de exames é estimado em dois meses, variando conforme o tipo de procedimento solicitado.

A comparação entre os anos de 2019 e 2025 demonstra que o número de exames realizados aumentou aproximadamente 152%. No mesmo período, proporcionalmente, a população de Brusque apresentou crescimento de 12,8%.

O maior volume foi registrado em 2025, quando foram realizados 482.403 exames. Somente até 5 de maio deste ano, outros 111.484 exames já haviam sido executados pela rede municipal.

Em entrevista ao jornal O Município, o secretário de Saúde, Ricardo Freitas, atribuiu o aumento da demanda e o tempo de espera pelo resultado a uma combinação de fatores.

De acordo com ele, a ampliação do número de profissionais atuando na rede municipal elevou o volume de consultas e, consequentemente, a quantidade de solicitações de exames.

Ricardo ressalta que a situação varia conforme o tipo de exame solicitado. Enquanto os exames laboratoriais apresentam cenário mais controlado após a renovação dos contratos com os laboratórios credenciados, os exames de imagem enfrentam maiores dificuldades.

Além da rede credenciada, o município utiliza a estrutura do Consórcio Intermunicipal do Médio Vale do Itajaí para ampliar a oferta de procedimentos. Entretanto, segundo o secretário, a capacidade disponível também é limitada.

“Os recursos da saúde são finitos. Não é possível direcionar todo o orçamento para exames, porque também precisamos custear consultas, procedimentos, medicamentos e diversas outras despesas essenciais para o funcionamento do sistema”, destaca.

O secretário afirma que o impacto é maior nas especialidades que dependem de exames de imagem, como a ortopedia.

“Se um médico atende 20 pacientes por dia e solicita 20 ressonâncias, isso pode representar cerca de 400 exames por mês apenas naquela especialidade. A capacidade disponível não acompanha esse volume”, exemplifica.

Outro fator que interfere na dinâmica das filas é a disponibilidade de horários ofertados pelos prestadores.

“Há situações em que os pacientes encontram dificuldades para comparecer nesses horários alternativos. Isso acaba influenciando a organização da fila e o aproveitamento das vagas disponíveis”, comenta.

Entre os exames que apresentam maiores desafios para atendimento estão as ressonâncias magnéticas. O alto custo do procedimento e a defasagem da tabela do Sistema Único de Saúde (SUS) dificultam a ampliação da oferta.

“Existe uma diferença significativa entre o valor pago pelo SUS e o preço praticado pelo mercado. Encontrar um equilíbrio entre esses valores é um desafio permanente”, afirma.

O secretário explica ainda que, mesmo quando há recursos financeiros disponíveis, a capacidade operacional dos prestadores possui limites físicos. “Um hospital pode ter apenas um equipamento de ressonância e precisa atender pacientes do SUS, de convênios e particulares ao mesmo tempo”, diz.

Ele também cita situações que fogem ao controle da administração municipal, como a interrupção de contratos por parte de prestadores antes do prazo previsto.

A reportagem conversou com com o presidente da Associação Brusquense de Medicina (ABM), o médico Humberto Teruo Eto, que respondeu aos questionamentos sobre o tema.

Quando questionado se o aumento na solicitação de exames está relacionado à atuação dos médicos, ele afirma que essa percepção não é exclusiva de Brusque e reflete transformações observadas em diferentes sistemas de saúde ao redor do mundo.

Segundo ele, há uma tendência de profissionais em início de carreira solicitarem um volume maior de exames complementares, mas esse comportamento deve ser analisado dentro de um contexto mais amplo.

De acordo com o presidente da ABM, o médico recém-formado ainda está consolidando sua vivência prática. Na ausência do olhar de longo prazo que os anos de consultório trazem, os exames laboratoriais e de imagem funcionam como uma rede de segurança indispensável para a tomada de decisão, garantindo a precisão do diagnóstico e o bem-estar do paciente.

Além disso, a formação médica atual é fortemente baseada em evidências científicas, diretrizes clínicas e protocolos assistenciais. Para seguir as linhas de cuidado preconizadas pelo Ministério da Saúde, os profissionais frequentemente precisam documentar e formalizar etapas diagnósticas por meio de exames.

Ele também cita a medicina defensiva. O aumento da judicialização da medicina faz com que muitos profissionais, especialmente os mais jovens, busquem respaldo documental para embasar condutas e diagnósticos.

Segundo a entidade, o surgimento de novos exames laboratoriais, testes genéticos e métodos de imagem de alta resolução transformou a prática clínica. Tecnologias antes restritas passaram a integrar a rotina médica por possibilitarem diagnósticos mais precoces e tratamentos mais assertivos.

A associação também cita o envelhecimento da população. Com o aumento da expectativa de vida, cresce a prevalência de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, cardiopatias e neoplasias, o que gera uma demanda contínua por exames de acompanhamento e controle.

Outro elemento apontado é o reflexo da demanda reprimida após a pandemia de Covid-19. De acordo com a entidade, muitos pacientes deixaram de realizar exames de rotina ou investigar sintomas durante o período mais crítico da crise sanitária, provocando um represamento que ainda impacta o sistema de saúde.

“Muitas vezes, os casos chegam aos consultórios em estágios mais avançados, exigindo uma investigação diagnóstica mais complexa”, destaca a ABM.

A sobrecarga da rede de saúde também é mencionada pela associação. O elevado volume de atendimentos na atenção primária e o tempo reduzido disponível para cada consulta fazem com que os exames complementares se tornem uma ferramenta importante para garantir a resolutividade dos atendimentos.

Para a ABM, a solução para otimizar a fila de espera por exames está no fortalecimento da atenção básica, aprimoramento constante dos sistemas de regulação e pela educação continuada em gestão de saúde, garantindo que o recurso público seja utilizado de forma racional e justa para quem mais precisa.